As grandes metrópoles como São Paulo, em maior ou menor grau, sofrem inúmeros problemas relacionados à educação, saúde, habitação e segurança. Embora relevantes para o funcionamento de uma cidade, essas questões perdem alguma importância diante a necessidade de Mobilidade Urbana, que passa a ser fundamental na garantia de qualidade de vida dos habitantes de grandes centros.
A dificuldade de mobilidade, relacionada às estruturas de transporte urbano, é sentida diariamente pelos habitantes da cidade de São Paulo, que enfrentam um número de quilômetros cada vez maior de congestionamentos.

Uma boa notícia é a possibilidade de solucionar esse caos com um novo modelo de ocupação urbana que, de forma inteligente, agregue as diversas atividades urbanas de lazer, trabalho, educação e habitação. A diminuição do número de viagens dentro da cidade melhoraria a mobilidade de maneira geral. Parece óbvio, mas não é.
Hoje, na Região Metropolitana de São Paulo, de acordo com a última pesquisa de origem e destino do Metrô, são feitas 38 milhões de viagens por dia. Destas, aproximadamente 25 milhões são motorizados e causam impactos ambientais significativos.
Sem dúvida, a ampliação da oferta de transporte público de qualidade faz parte de uma solução de longo prazo. Mas a curto e médio prazos devemos estruturar alternativas viáveis e eficientes que possam, por meio de novos modelos de ocupação, melhorar o deslocamento das pessoas.
Uma das possibilidades em médio prazo seria revitalizar o sistema ferroviário urbano e criar, ao longo desta estrutura, pólos de desenvolvimento autossustentáveis. Nesses pólos, o Plano Diretor Estratégico e a Legislação de Uso e Ocupação do Solo poderiam prever o modelo de usos e adensamento compatíveis com a criação de um setor da cidade relativamente independente no dia a dia quanto à conexão com outras áreas do município.
Em sendo necessária esta conexão, ela poderia ser feita por meio de rede metroferroviária, liberando assim o sistema viário da cidade. Dessa forma, teríamos um aumento considerável da mobilidade de maneira geral. Não se pode esquecer o efeito colateral positivo dessa ação, no que se refere à sustentabilidade e qualidade ambiental da cidade.
A relação direta dos congestionamentos com a poluição é clara. Estudos recentes publicados pelo UCTC (University of California Transportation Center) demonstraram que quando a velocidade média dos veículos é reduzida a valores inferiores a 15 Km/h, a emissão de dióxido de carbono na atmosfera aumenta em torno de 350% em relação à emissão gerada quando a velocidade está entre 20 e 100 Km/h. Em velocidades superiores a 100Km/h, embora em percentual menor, é também aumentada a emissão de CO2.
Ainda com base nesses estudos, durante um congestionamento cada veículo, em média, emite cerca de 620g de CO2 por quilometro percorrido. Portanto, se considerarmos uma média de 100km de congestionamento nos períodos da manhã e tarde dos dias úteis, teríamos na cidade de São Paulo a emissão de mais de mil toneladas de CO2 por dia, ou seja, aproximadamente 270 mil toneladas de dióxido de carbono por ano.
Somente para raciocinar: se considerarmos que cada hectare de floresta capta na média 39 toneladas de CO2 por ano,precisaríamos de uma área de florestas equivalente a 10 mil campos de futebol do tamanho do Pacaembu, somente para seqüestrar a quantidade de carbono emitida ao ano em função dos congestionamentos diários.
É urgente a mudança de posicionamento e a reavaliação dos modelos de ocupação na cidade de São Paulo. Qualquer planejamento urbano de uma grande metrópole que não considere o equilíbrio da oferta e demanda por habitação, alicerçado na localização das oportunidades de emprego e na realidade de mercado quanto ao poder aquisitivo da população, induzirá a produção de habitações em locais inadequados sob o aspecto da mobilidade, impactando de forma contundente a qualidade de vida e o meio ambiente, colocando em risco a sustentabilidade urbana e humana.
Claudio Bernardes
engenheiro civil, vice-presidente do Secovi-SP e pró-reitor da Universidade Secovi
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